Textos

A baianidade do Professor Salvador

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A peça teatral de nome “Quem souber morre” nos introduz a cultura de um estado, a cultura mais ainda de uma cidade que é o topo do sincretismo, do caldeirão cultural e das mais diversas vivências que a tornam um lugar único e peculiar a vista de todos. O enredo nos apresenta logo de cara o professor Salvador que vai nos ensinar como fazer uma redação nota mil no Enem, ele de primeira nos pergunta qual seria o tema perfeito para a redação, nos introduzindo a um tema que nos surpreende, a cidade de Salvador.

     A partir desse tema se desenvolve a peça com o professor de redação mais divertido que com certeza queria poder ter no colégio com suas histórias maravilhosas sobre a cidade. A primeira das histórias que nos é apresentada nada mais é do que a pura representação do sincretismo religioso que é uma das partes mais fortes e viventes dessa cidade multicultural, o nosso anfitrião e professor nos conta a história de uma de suas promessas que vai originar o nome da produção.

A história do camarão seco e da vendedora já nos faz entrar no universo sem igual desse pedaço de chão que muitos chamam de lar. Mas claro que o nosso professor tinha muito mais a nos contar do que apenas a história de sua promessa, ele nos introduz a sua história de idas e vindas, amor e ódio por essa capital. Vai também nos provocar a refletir os problemas sociais baianos e soteropolitanas, o núcleo criativo da cidade e também a os problemas que enfrenta o município.

Ele nos provoca com uma das partes mais interessantes nos perguntando porque ao invés de apenas reclamar sobre a situação não fazemos algo para mudar, porque esperamos que o governo resolva pendências que nós podemos muito bem solucionar? Para estas provocações nós temos o autor e ator Ricardo Castro ou professor Salvador contado como pegou essa simples percepção enquanto assistia a televisão e viu uma notícia que denunciava o descaso, o descaso do governo em deixar o mato crescer em um terreno baldio e o povo a exigir uma resposta governamental, mas logo ele se pergunta: Porque esses mesmos que reclamavam não aparavam o mato?  Porque você não pode ajudar e tornar a cidade um pouco mais agradável?

Com essa provocação ele nos deixa a ideia que podemos sim aprimorar a cidade e que a nossa ajuda beneficiaria não só a nós mesmos como a toda a vizinhança. Um ato simples de cortar a grama, jogar lixo no local destinado, manter a cidade mais limpa não só isso, mas também em outros aspectos pode beneficiar a todos, e deveríamos fazer. Mas não nos indignamos a executá-lo.

Professor Salvador mostra sim os problemas deste lugar, mas claro ele prefere ainda exibir o melhor da cidade e até nos indica um livro ao qual concentra um estudo detalhado sobre a cidade e suas nuances. E como já supracitado ele é um viajante também que deixou em algum momento a capital baiana e rumou para outros voos no Rio e em outros lugares, mas nos conta que nenhum lugar é tão significativo como Salvador.

Introduzindo a história de um garotinho a procura de sua Itinga, o menino que fora adotado por um casal da Alemanha e levado para esta, mas que de certa forma nunca deixou Itinga. Ele mesmo no inverno saía de sua casa e ia ao ponto de ônibus atrás de uma volta a sua cidade natal. Para aqueles que como eu, saíram de sua cidade natal para obter um futuro melhor é de imensa significância, pois nós acima de todos os outros sabemos o que é ter sua Itinga.

Itinga seria o nosso lugar no mundo como era daquele menininho, Itinga é o local onde podemos sempre voltar e nos sentir em casa. Para quem mora longe dela é a dor da distância e a felicidade da chegada, é o aperto no coração quado vai embora e descanso de estar lá. Mas que tudo isso sabemos como é preciso ter coragem de deixar sua Itinga para trás, mas sempre com a promessa, vou voltar mesmo que leve muito tempo.

Esse é um daqueles relatos que te faz querer chorar, que te comove e te leva a lembranças boas. Assim como a narração seguinte, da noiva que no dia de seu casamento descobre que sua vida nada mais era que um conto fantasioso e que esta nunca foi real, tudo não passava da imaginação do autor. Ricardo Castro como ótimo ator, nos leva ao choro e emoção com o desespero da garota.

Ele insere o relato da bebê abandonada que ele com pena decidiu criar uma história para ela e também para sua amiga que queria uma peça onde usasse um vestido de noiva. Conta todos os momentos dessa garota até o casamento, conta como criou a melhor biografia do mundo e a mais feliz para ela, mas ao descobrir ela se revolta e se entristece por saber a verdade, o intérprete com muita sabedoria consegue passar a angústia dela, a dor que me fez soltar as mais sinceras lágrimas de emoção.

     Posso dizer que a maioria dos presentes podiam sentir e foram tocados, se não levados aos prantos por essa parte da montagem, ainda no final como em toda a obra ele nos faz um desfio a respondermos a nós mesmos a frase: “Quem está te escrevendo?”, ele nos pergunta sem esperar uma resposta, mas nos faz pensar, ele na personagem ainda instiga com : “É você? Seus pais? Quem realmente está fazendo a sua redação?” , ainda a personagem nos diz que devemos sempre tomar o controle de nossa redação ou então alguém assim como ela está te escrevendo e com isso o que nos faria mais reais do que ela?

Esse é um dos atos aos quais eu me emocionei, não apenas pela boa atuação, mas também pela bela significação que teve em mim, eu com minhas dúvidas, com minhas incertezas, não pude responder quem me escrevia, em partes porque sei que de fato não tem sido tudo de minha autoria, assim como a garota eu estou de certa forma sendo escrita por alguém, e isso me fez refletir sobre o que eu quero da minha vida, assim como mais tarde meu colega apresentou e de certo me tocou ” Farei minha redação mesmo que a nota final não seja mil”, porque mesmo com isso ela será minha e é ela que me fará real.

Apesar de todos os atos entre cenas tristes, emocionantes e felizes, poderia-se dizer que não faltou ao texto elementos coesivos e muito menos coerência, bem articulado e bem produzido, nos trás tudo isso sem muito cenário apenas com elementos simbólicos e representativos que nos lembram quem ele quer representar, música e uma cadeira. A presença de palco do ator e ainda seu poder de persuasão nos transporta aos locais onde ele quer nos levar sem a necessidade de um lugar super montado e produzido, a simplicidade leva pontos e nos prende ao intérprete.

Salvador é mesmo uma figura, um grande contador de histórias como a dos apaixonados que por conta de uma ditadura nunca se encontraram, outro momento emocionante com direito a música que nos deixa a desejar que estes pudessem se encontra em alguma esquina de Buenos Aires. No final o que se percebe da peça é que o teatro pode ser mágico e vívido e que como dizem por aí a arte imita a vida e se isso for de todo verdade então a vida é uma epopeia, um grande relato que pode nos emocionar, nos fazer rir e também refletir sobre nós mesmos e nossos sonhos, basta que tomemos a caneta e o papel e comecemos a escrever nós mesmos nossa pequena epopeia.

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